Caso Arturo Gatti: o que a perícia mostrou
A esposa foi presa no dia seguinte e solta 18 dias depois. Quem mudou o rumo foi a perícia.
a esposa
de cair no chão
Brasil e Canadá
em disputa
O caso em 30 segundos
- Em 11/07/2009, o boxeador Arturo Gatti, 37 anos, foi achado morto num flat em Porto de Galinhas (PE).
- Estava com a esposa, Amanda Rodrigues, e o filho bebê. O casal tinha bebido e brigado na noite anterior.
- No dia seguinte, Amanda foi presa. A polícia achava que ela o estrangulou com a alça de uma bolsa.
- O laudo apontou enforcamento. Com a perícia de local, a polícia concluiu suicídio, e Amanda foi solta.
- A família de Gatti pagou uma investigação própria, que falou em homicídio. No Brasil, o caso fechou como suicídio.
Dois anos de laudos
Gatti é achado morto no flat. Perto do corpo, a alça de uma bolsa com sangue.
Amanda é presa, suspeita de homicídio, por contradições no depoimento.
Laudo do IML do Recife: asfixia por enforcamento, com causa jurídica ignorada.
Com o laudo do Instituto de Criminalística, a polícia conclui suicídio. Amanda é solta.
O corpo é exumado em Montreal e passa por uma segunda necropsia no Canadá.
Coroner de Quebec: morte violenta, sem prova clara de outra pessoa. Investigação particular fala em homicídio.
A hipótese mudou três vezes
Primeira informação da polícia. Esganadura é com as mãos, sem laço, e é sempre homicídio.
Amanda teria apertado a alça no pescoço dele enquanto ele dormia bêbado. Ela é presa.
O laudo do IML descreve o sulco oblíquo, ascendente e alto. Amanda é solta.
Anos depois, peritos pagos pela família defendem que alguém apertou o laço.
Enforcamento: o peso do corpo aperta o laço. Estrangulamento: uma força de fora puxa o laço. Esganadura: as mãos.
Os 5 vestígios em disputa
O sulco no pescoço
O laudo do IML descreveu o sulco como oblíquo, único, ascendente e acima da cartilagem tireóidea. É o desenho do enforcamento.
O limite
O laudo também chamou o sulco de “contínuo”, e o do enforcamento costuma ser interrompido no nó. Mas, com alça larga ou laço corrediço, ele pode parecer contínuo.
A alça e a coluna da escada
Segundo a polícia, a alça foi presa numa coluna de madeira da escada, a mais de dois metros do chão. A perícia de local achou marcas nessa coluna.
O limite
Os críticos acharam improvável um homem do porte de Gatti se enforcar assim. Mas o enforcamento não exige o corpo todo suspenso.
Os ferimentos na cabeça
Pequenos cortes na cabeça. A polícia falou primeiro numa faca pequena, depois numa pedra, de uma briga de rua. O IML admitiu que parte pode ter vindo dele se debatendo, suspenso.
O limite
Para a investigação paga pela família, ele levou um golpe antes de ser estrangulado. A reação vital mostra lesão feita em vida, mas não quando nem por quem.
Corpo no chão, não pendurado
Pelo laudo, Gatti ficou suspenso cerca de três horas antes de cair. Isso explica por que foi achado deitado e por que a primeira leitura da polícia foi de homicídio.
O limite
As fontes não dizem que sinais o legista usou. Álcool, calor e tempo até o exame mexem com o corpo. A estimativa é sempre uma faixa.
Duas necropsias, mesma causa
No Recife: asfixia por enforcamento e muito álcool no sangue. No Canadá, o corpo foi exumado e examinado de novo. Em 2011, o coroner de Quebec apontou a mesma causa provável.
O limite
O patologista Michael Baden, pela família, disse que a necropsia brasileira deixou lesões sem descrever. Mas o corpo embalsamado atrapalha o segundo exame. E a causa não diz quem apertou.
O desfecho
Amanda nunca foi denunciada nem julgada. No Brasil, não houve ação penal.
Solta no fim de julho de 2009, anunciou ação por danos morais contra o Estado de Pernambuco.
A família contestou o testamento que deixava tudo para ela. Em 2011, ela ganhou a disputa.
Por volta de 2013, o Ministério Público de Pernambuco avaliou novos exames, mas a conclusão oficial não mudou.
E se fosse hoje?
Guardaria um registro do pescoço e do crânio que qualquer perito poderia rever, mesmo após o embalsamamento.
Registro de quem recolheu a alça e como. DNA na alça e na coluna poderia mostrar quem tocou o laço.
Testaria, com as medidas reais, se a coluna, a alça e o corpo de Gatti combinavam com o enforcamento.
Continue investigando
Toda quarta, às 21h, eu abro um caso real ao vivo.
Perguntas frequentes
Como Arturo Gatti morreu?
Por asfixia por enforcamento, segundo o laudo do IML do Recife. Foi achado morto em 11 de julho de 2009, em Porto de Galinhas (PE).
A esposa de Arturo Gatti foi condenada?
Não. Amanda Rodrigues ficou 18 dias presa e foi solta quando a polícia concluiu suicídio. Ela nunca foi denunciada nem julgada.
Por que a família diz que foi assassinato?
Uma investigação particular, paga pelo ex-empresário Pat Lynch, concluiu por homicídio. A família cita também o testamento mudado semanas antes, a favor de Amanda.
O caso Gatti foi reaberto?
Em setembro de 2009, a Justiça de Ipojuca reabriu o inquérito e pediu novos exames. A conclusão oficial continuou sendo suicídio.
Fontes
Material da aula e as matérias:
- Corpo encontrado em flat de Porto de Galinhas é de boxeador canadense · Gazeta do Povo, 11/07/2009
- Mulher de boxeador morto em Pernambuco é indiciada · A Tarde, 12/07/2009
- Pugilista morreu enforcado, aponta laudo do IML · Gazeta do Povo, 18/07/2009
- Authorities Missed Injuries During Gatti Autopsy (em inglês) · NBC 6 South Florida, 01/08/2009
- Viúva de boxeador vai mover ação por danos morais contra o Estado de PE · Migalhas, 27/08/2009
- Juíza manda reabrir inquérito de boxeador morto em Pernambuco · Migalhas, 04/09/2009
- Laudo diz que boxeador morto em 2009 foi assassinado · Diário do Grande ABC, 08/09/2011
- Boxeador de 17 anos, filho de brasileira, é encontrado morto igual ao pai · Band, 08/10/2025
Texto educativo, feito a partir de matérias públicas. Em respeito à memória de Arturo Gatti e à família, não usamos fotos da vítima nem do corpo.