Caso real · Pernambuco · 2009

Caso Arturo Gatti: o que a perícia mostrou

A esposa foi presa no dia seguinte e solta 18 dias depois. Quem mudou o rumo foi a perícia.

18dias presa,
a esposa
~3 hsuspenso antes
de cair no chão
2necropsias:
Brasil e Canadá
5vestígios
em disputa
Henrique Tabosa, perito criminal
Por Henrique Tabosa, perito criminal há 17 anos

O caso em 30 segundos

  • Em 11/07/2009, o boxeador Arturo Gatti, 37 anos, foi achado morto num flat em Porto de Galinhas (PE).
  • Estava com a esposa, Amanda Rodrigues, e o filho bebê. O casal tinha bebido e brigado na noite anterior.
  • No dia seguinte, Amanda foi presa. A polícia achava que ela o estrangulou com a alça de uma bolsa.
  • O laudo apontou enforcamento. Com a perícia de local, a polícia concluiu suicídio, e Amanda foi solta.
  • A família de Gatti pagou uma investigação própria, que falou em homicídio. No Brasil, o caso fechou como suicídio.

Dois anos de laudos

~3 h
Pelo laudo, ele ficou suspenso cerca de três horas antes de cair. Por isso foi achado deitado.
11/07/2009

Gatti é achado morto no flat. Perto do corpo, a alça de uma bolsa com sangue.

12/07/2009

Amanda é presa, suspeita de homicídio, por contradições no depoimento.

Julho de 2009

Laudo do IML do Recife: asfixia por enforcamento, com causa jurídica ignorada.

Fim de julho de 2009

Com o laudo do Instituto de Criminalística, a polícia conclui suicídio. Amanda é solta.

2009

O corpo é exumado em Montreal e passa por uma segunda necropsia no Canadá.

2011

Coroner de Quebec: morte violenta, sem prova clara de outra pessoa. Investigação particular fala em homicídio.

A hipótese mudou três vezes

1
Esganadura

Primeira informação da polícia. Esganadura é com as mãos, sem laço, e é sempre homicídio.

2
Estrangulamento com a alça

Amanda teria apertado a alça no pescoço dele enquanto ele dormia bêbado. Ela é presa.

3
Enforcamento

O laudo do IML descreve o sulco oblíquo, ascendente e alto. Amanda é solta.

4
Estrangulamento, de novo

Anos depois, peritos pagos pela família defendem que alguém apertou o laço.

Enforcamento: o peso do corpo aperta o laço. Estrangulamento: uma força de fora puxa o laço. Esganadura: as mãos.

Os 5 vestígios em disputa

1

O sulco no pescoço

O laudo do IML descreveu o sulco como oblíquo, único, ascendente e acima da cartilagem tireóidea. É o desenho do enforcamento.

O limite

O laudo também chamou o sulco de “contínuo”, e o do enforcamento costuma ser interrompido no nó. Mas, com alça larga ou laço corrediço, ele pode parecer contínuo.

2

A alça e a coluna da escada

Segundo a polícia, a alça foi presa numa coluna de madeira da escada, a mais de dois metros do chão. A perícia de local achou marcas nessa coluna.

O limite

Os críticos acharam improvável um homem do porte de Gatti se enforcar assim. Mas o enforcamento não exige o corpo todo suspenso.

3

Os ferimentos na cabeça

Pequenos cortes na cabeça. A polícia falou primeiro numa faca pequena, depois numa pedra, de uma briga de rua. O IML admitiu que parte pode ter vindo dele se debatendo, suspenso.

O limite

Para a investigação paga pela família, ele levou um golpe antes de ser estrangulado. A reação vital mostra lesão feita em vida, mas não quando nem por quem.

4

Corpo no chão, não pendurado

Pelo laudo, Gatti ficou suspenso cerca de três horas antes de cair. Isso explica por que foi achado deitado e por que a primeira leitura da polícia foi de homicídio.

O limite

As fontes não dizem que sinais o legista usou. Álcool, calor e tempo até o exame mexem com o corpo. A estimativa é sempre uma faixa.

5

Duas necropsias, mesma causa

No Recife: asfixia por enforcamento e muito álcool no sangue. No Canadá, o corpo foi exumado e examinado de novo. Em 2011, o coroner de Quebec apontou a mesma causa provável.

O limite

O patologista Michael Baden, pela família, disse que a necropsia brasileira deixou lesões sem descrever. Mas o corpo embalsamado atrapalha o segundo exame. E a causa não diz quem apertou.

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O desfecho

Na Justiça criminalSuicídio

Amanda nunca foi denunciada nem julgada. No Brasil, não houve ação penal.

Amanda Rodrigues · esposa18 dias presa

Solta no fim de julho de 2009, anunciou ação por danos morais contra o Estado de Pernambuco.

Na Justiça do CanadáHerança com Amanda

A família contestou o testamento que deixava tudo para ela. Em 2011, ela ganhou a disputa.

Por volta de 2013, o Ministério Público de Pernambuco avaliou novos exames, mas a conclusão oficial não mudou.

E se fosse hoje?

Tomografia antes do traslado

Guardaria um registro do pescoço e do crânio que qualquer perito poderia rever, mesmo após o embalsamamento.

Cadeia de custódia e DNA de toque

Registro de quem recolheu a alça e como. DNA na alça e na coluna poderia mostrar quem tocou o laço.

Escâner 3D do flat

Testaria, com as medidas reais, se a coluna, a alça e o corpo de Gatti combinavam com o enforcamento.

Perguntas frequentes

Como Arturo Gatti morreu?

Por asfixia por enforcamento, segundo o laudo do IML do Recife. Foi achado morto em 11 de julho de 2009, em Porto de Galinhas (PE).

A esposa de Arturo Gatti foi condenada?

Não. Amanda Rodrigues ficou 18 dias presa e foi solta quando a polícia concluiu suicídio. Ela nunca foi denunciada nem julgada.

Por que a família diz que foi assassinato?

Uma investigação particular, paga pelo ex-empresário Pat Lynch, concluiu por homicídio. A família cita também o testamento mudado semanas antes, a favor de Amanda.

O caso Gatti foi reaberto?

Em setembro de 2009, a Justiça de Ipojuca reabriu o inquérito e pediu novos exames. A conclusão oficial continuou sendo suicídio.

Fontes

Material da aula e as matérias:

Texto educativo, feito a partir de matérias públicas. Em respeito à memória de Arturo Gatti e à família, não usamos fotos da vítima nem do corpo.