Caso real · Rio Grande do Sul · 2013

Boate Kiss: o que a perícia mostrou

Não foi o fogo que matou a maioria. Foi a fumaça.

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Henrique Tabosa, perito criminal
Por Henrique Tabosa, perito criminal há 17 anos

O caso em 30 segundos

  • Na madrugada de 27/01/2013, um incêndio na Boate Kiss, em Santa Maria (RS), matou 242 pessoas e feriu mais de 600.
  • Eram, na maioria, jovens universitários numa festa de turmas da UFSM.
  • Um artefato pirotécnico aceso no palco pôs fogo na espuma do teto.
  • A perícia mostrou que a maioria morreu pelos gases tóxicos da espuma, e não pelas chamas.
  • Os sócios e dois integrantes da banda foram condenados em 2021. Depois, o júri foi anulado, restabelecido e as penas recalculadas.

Da madrugada até hoje

27/01/2013 · 3h15

Um artefato pirotécnico é aceso no palco. O fogo pega na espuma do teto.

30/01/2013

Reconstituição oficial. Os laudos, com mais de mil páginas, saem em 7 de fevereiro.

Dezembro de 2021

Júri em Porto Alegre condena os quatro réus a penas de 18 a 22 anos e meio.

Agosto de 2022

O TJRS anula o júri por irregularidades no sorteio dos jurados. Os réus são soltos.

Setembro de 2024

O STF restabelece as condenações e manda prender os réus.

Agosto de 2025

O TJRS recalcula as penas: 12 anos para os sócios e 11 para a banda.

Como a fumaça tomou a boate

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3h15 · o artefato

Durante o show, um artefato conhecido como “Sputnik”, feito para uso ao ar livre, é aceso no palco.

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A espuma do teto

As faíscas atingem a espuma de poliuretano, no canto do palco. O extintor perto não funciona.

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Em 40 segundos

A fumaça preta e tóxica, com cianeto e monóxido de carbono, toma o ambiente.

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Em 5 minutos

A fumaça já desce a cerca de 1,5 m do chão. Só sobrevive quem consegue rastejar.

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Uma única saída

Grades de ferro atrapalham a fuga. Sem enxergar, muitos correm para os banheiros achando que era a saída.

Os 5 vestígios que contaram a história

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A espuma do teto

O forro tinha espuma de poliuretano, inflamável e proibida por lei municipal. O laudo de março de 2013 confirmou: ao queimar, ela libera gás cianídrico, monóxido e dióxido de carbono.

O que a defesa disse

Os sócios disseram que não sabiam do perigo da espuma e que a casa funcionava com o conhecimento das autoridades. As defesas apontaram falhas do poder público na fiscalização.

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O cianeto no sangue

O IGP, com apoio de um laboratório de química forense de La Plata, na Argentina, achou cianeto e carboxi-hemoglobina no sangue das vítimas. A causa: asfixia pela inalação de gases tóxicos.

O limite

O cianeto é instável. Em fevereiro de 2013, os primeiros exames não acharam nível suficiente para matar, e foram pedidas contraprovas. E os dois gases agem juntos: nem sempre dá para separar o peso de cada um.

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A prova de que respiravam

Só entra fumaça no pulmão e CO no sangue de quem está respirando. A carboxi-hemoglobina alta, bem acima da de fumantes, mostrou que as vítimas estavam vivas quando a fumaça chegou.

O limite

Os detalhes de cada necropsia não são públicos. Aqui a resposta era quase óbvia. Num incêndio com corpos carbonizados, essa pergunta vira o centro da perícia.

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O modelo 3D da boate

Com scanner, os peritos fizeram uma “caminhada virtual” pela boate, acharam a origem do fogo e estudaram o caminho da fumaça. Ingressos, hospitais e depoimentos mostraram a superlotação.

O limite

Os corpos foram retirados poucas horas depois, antes de os livores se fixarem. A dinâmica veio da planta, dos depoimentos e do modelo 3D.

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A identificação

Como a maioria morreu por asfixia, e não carbonizada, os corpos estavam preservados. A identificação foi feita principalmente pelas digitais, e os casos duvidosos, por arcada dentária e DNA.

O limite

Parte da primeira lista veio do reconhecimento por familiares, o método menos confiável. As autoridades locais chegaram a informar 233 mortos, número corrigido depois pelo IGP.

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O desfecho

Elissandro Spohr e Mauro Hoffmann · sócios12 anos cada

No júri de 2021: 22 anos e 6 meses e 19 anos e 6 meses. Hoje, os dois estão no regime aberto, com tornozeleira.

Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Bonilha Leão · banda11 anos cada

No júri de 2021: 18 anos cada. Hoje, os dois estão em livramento condicional.

O júri de 2021 foi anulado em 2022 e restabelecido pelo STF em 2024. Em setembro de 2026, a relatora no STJ votou por aumentar as penas, mas um pedido de vista suspendeu o julgamento. Até outubro de 2026, valem as penas de 2025.

E se fosse hoje?

Coleta para cianeto

Sangue colhido cedo, em frasco cheio, vedado e refrigerado, tudo registrado na cadeia de custódia. Ajudaria a explicar um resultado baixo.

Tomografia post-mortem

Ajudaria a triar dezenas de corpos em pouco tempo, mostrando fraturas por pisoteamento.

Escâner 3D antes da retirada

Registraria a posição de cada corpo, guardando o que os livores e a rigidez diriam depois.

Perguntas frequentes

Do que morreram as vítimas da Boate Kiss?

A maioria morreu asfixiada pelos gases da espuma do teto, principalmente cianeto, junto com monóxido de carbono. Pisoteamento e queimaduras tiveram papel menor.

Quantas pessoas morreram na Boate Kiss?

242 pessoas, a maioria jovens universitários. Mais de 600 ficaram feridas.

O que causou o incêndio?

Um artefato pirotécnico de uso externo, aceso durante o show da banda, atingiu a espuma de poliuretano do teto.

Os réus da Boate Kiss estão presos?

Não. Desde 2025, as penas são de 12 anos para os sócios e 11 para a banda, cumpridas fora do presídio. Um recurso no STJ que pode aumentá-las está suspenso.

Fontes

Material da aula e as matérias:

Texto educativo, feito a partir do material da aula e de matérias públicas. Em respeito à memória das 242 vítimas, aos sobreviventes e às famílias, não usamos fotos das vítimas.