Caso real · São Paulo · 2012

Caso Elize Matsunaga: o que a perícia mostrou

Apartamento lavado e nenhuma testemunha. Quem contou a história foi o descarte.

11h30sai com
três malas
23h50volta
sem elas
5pontos de descarte
na estrada
2laudos do IML
que divergiram
Henrique Tabosa, perito criminal
Por Henrique Tabosa, perito criminal há 17 anos

O caso em 30 segundos

  • Em 19/05/2012, Marcos Matsunaga, 41 anos, diretor da Yoki, foi morto com um tiro no apartamento do casal, em São Paulo.
  • A esposa, Elize, atirou com uma pistola dele, depois de uma discussão sobre uma traição.
  • No dia seguinte, ela saiu com o corpo em três malas e espalhou as partes numa estrada de Cotia.
  • Sem testemunha e com o apartamento lavado, a prova veio do descarte: câmeras, celular, sacos plásticos e luminol.
  • Presa, negou. Diante das imagens, confessou. Foi condenada pelo júri em 2016.

O caminho das malas

19/05/2012 · noite

Câmeras mostram Marcos descendo para pegar uma pizza e voltando. Depois, ele não aparece mais.

20/05 · 11h30

Elize desce pelo elevador de serviço com três malas e sai de carro.

20/05 · 23h50

Ela volta ao prédio sem as malas.

21 a 28/05

Moradores acham sacos plásticos com partes de um corpo na Estrada dos Pires, em Cotia.

Início de junho

Identificação formal em 4/06. Elize é presa, nega e, diante das imagens, confessa.

05/12/2016

Fim do júri de sete dias. Condenada a 19 anos, 11 meses e 1 dia.

A rota do descarte

1
Apartamento, Vila Leopoldina

Onde houve o tiro. Foi lavado, mas o luminol achou sangue na sala, no corredor e no quarto.

2
Elevador de serviço

Câmeras do prédio: saída às 11h30 com três malas, volta às 23h50 sem elas.

3
Estrada rumo ao Paraná

Ela seguiu em direção à cidade natal, desistiu em Capão Bonito e voltou.

4
Estrada dos Pires, Cotia

Cinco pontos de descarte, achados aos poucos por moradores. O celular marcou a passagem dela pela região.

5
Lixeira de shopping e caçamba

A faca foi para uma lixeira de shopping e as malas para uma caçamba. A faca nunca foi achada.

Descartar não destrói, transfere: a estrada virou um segundo local de crime.

Os 5 vestígios que decidiram

1

As roupas sem documento

Sem documento, só roupas de grife: jeans Diesel e camiseta Ralph Lauren. Sinal de vítima de alto poder aquisitivo. O irmão de Marcos já tinha registrado o desaparecimento.

O limite

Roupa de grife aproxima, mas não identifica. O nome só veio com a identificação formal, em 4 de junho, cerca de quinze dias depois do crime.

2

Os sacos plásticos

Os sacos importados que sobraram no apartamento eram idênticos aos que embalavam os restos em Cotia. Por ser produto importado, fora do comum, a coincidência teve peso.

O limite

“Idêntico” aqui quer dizer mesmo tipo de saco. Não há registro público de exame de encaixe ou de estrias entre os sacos e o rolo da casa. Sem isso, não prova que saíram daquele rolo.

3

Câmeras e celular

As câmeras do prédio registraram a saída com três malas e a volta sem elas. Os dados do celular marcaram a passagem dela pela região do descarte.

O limite

Câmera mostra as malas, não o que havia dentro. E a antena de celular indica uma área, não um ponto exato.

4

O luminol na cena lavada

Na reconstituição, o luminol revelou sangue lavado, invisível a olho nu, e refez o trajeto do corpo: sala, corredor e quarto. Os pontos batiam com a versão dela.

O limite

É teste de orientação: mostra onde pode haver sangue, não quando nem de quem. Água sanitária e alguns metais também reagem. Depois vêm os testes de confirmação e o DNA.

5

Os dois laudos do IML

O primeiro laudo achou sangue nos alvéolos: Marcos ainda respiraria durante o corte. Também apontou tiro no lado esquerdo do crânio, de cima para baixo, a curtíssima distância.

O que a defesa disse

Que a gravidade bastava para o sangue descer aos pulmões. Após a exumação de 2013, um novo laudo do IML disse que ele já estava morto. Os jurados afastaram o meio cruel.

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A sentença

Júri · dezembro de 201619 anos, 11 meses e 1 dia

Homicídio qualificado e destruição e ocultação de cadáver. Os jurados afastaram o meio cruel e o motivo torpe.

STJ · março de 201916 anos e 3 meses

Pena do homicídio, com a confissão aceita como atenuante. Somada à do cadáver, o total fica em cerca de 17 anos e 5 meses.

Em 2019, o STF negou novo recurso. Em maio de 2022, depois de cerca de dez anos presa, Elize saiu em livramento condicional.

E se fosse hoje?

Cadeia de custódia

Cada saco, cada mala e o rolo que ficou na casa com lacre e registro até o laboratório. Abriria espaço para o exame de encaixe dos sacos.

Tomografia antes da necropsia

Guardaria o projétil, o trajeto do tiro e o sangue nas vias aéreas em imagens que não se decompõem.

Drones e GPS

Ajudariam a mapear os cinco pontos da Estrada dos Pires e a orientar a busca pelo braço que nunca foi achado.

Perguntas frequentes

Como a polícia descobriu que foi Elize?

Pelas câmeras do prédio, pelos dados do celular e pelos sacos iguais aos do descarte. Diante das imagens, ela confessou.

Marcos estava vivo quando o corpo foi cortado?

O primeiro laudo do IML disse que sim; o laudo feito depois da exumação de 2013 disse que não. Os jurados afastaram o meio cruel por falta de prova suficiente.

Qual foi a pena de Elize Matsunaga?

19 anos, 11 meses e 1 dia no júri de 2016. Em 2019, o STJ baixou a pena do homicídio para 16 anos e 3 meses, e o total ficou em cerca de 17 anos e 5 meses.

Elize Matsunaga está presa?

Não. Ela saiu em livramento condicional em maio de 2022 e vive em Franca (SP), com regras a cumprir até 2028.

Fontes

Materiais da aula (resumo do caso e técnica aplicada) e as matérias:

Texto educativo, feito a partir de decisões judiciais e de matérias públicas. Em respeito à memória de Marcos e à família, não usamos fotos da vítima.