Enfermeiro da Morte: quando o corpo não fala
Sem marca no corpo e sem exumação. A prova veio do registro.
nos plantões dele
julgadas
sustentaram a prova
O caso em 30 segundos
- Em 1999, Edson Izidoro Guimarães era auxiliar de enfermagem nos plantões noturnos do Hospital Salgado Filho, no Méier, Rio de Janeiro.
- Entre janeiro e maio, a unidade dele teve 225 mortes. 153 aconteceram nos plantões dele.
- Ele confessou injeções de cloreto de potássio na veia e a retirada do oxigênio de pacientes graves.
- Os dois métodos quase não deixam marca no corpo. A prova veio da testemunha, da escala de plantões e da confissão.
- Condenado por quatro mortes, ficou com pena final de 31 anos e 8 meses.
Do padrão à pena final
A unidade registra 225 mortes. A escala mostra 153 nos plantões dele.
Três pacientes morrem de madrugada. Edson é preso de manhã e confessa no mesmo dia.
O Coren-RJ cassa o registro profissional dele, por unanimidade.
1º júri: condenado pelas quatro mortes a 76 anos.
O TJRJ entende que é crime continuado e baixa a pena para 31 anos e 8 meses.
Depois do 2º júri (69 anos), o TJRJ fixa de novo 31 anos e 8 meses.
Por que o potássio some
Logo depois da morte começa a autólise. A célula para de produzir energia e fica ácida.
Em vida, quase todo o potássio fica dentro das células. Sem energia, as membranas se rompem.
Em poucas horas, o sangue de qualquer cadáver tem potássio alto. O excesso injetado se esconde no meio.
O cloreto de potássio se separa em potássio e cloreto, que o corpo já tem. A toxicologia não tem o que procurar.
No dia da prisão, o secretário municipal de Saúde chamou isso de “morte branca”.
As 5 peças da prova
A escala × o livro de óbitos
De 4 de janeiro a 4 de maio de 1999, foram 225 mortes na unidade. 153, cerca de 68%, nos plantões de Edson.
O limite
A estatística mostra uma associação forte, mas não diz qual das 153 mortes foi provocada. Dos 131 óbitos investigados, só quatro chegaram a julgamento.
A funcionária da limpeza
Kátia, da limpeza, viu Edson aplicar uma injeção e o paciente morrer logo em seguida. Foi ela que levou a suspeita à direção do hospital.
O limite
Ela viu a aplicação, não o conteúdo. Não há registro público de que a seringa, a ampola ou o soro tenham sido recolhidos. Era ali que o excesso de potássio apareceria.
Os policiais à paisana
Agentes infiltrados entre os funcionários, sob o comando da delegada Marta Cavaliere. Em 1999, o STJ considerou válida essa vigilância e manteve a prisão.
O limite
A vigilância foi montada a partir da relação entre as mortes e os plantões dele. É prova de contexto: não há registro de exame do corpo que tenha mostrado a causa das mortes.
A confissão
Preso em 7 de maio de 1999, confessou no mesmo dia: ampolas de 10 ml de cloreto de potássio na veia ou retirada do oxigênio. Confessou cinco mortes.
O que a defesa disse
Que a confissão foi arrancada sob ameaça e agressão da polícia. Depois, que a imprensa pressionou os jurados. O pedido de anulação foi rejeitado.
O corpo que não falou
A autólise faz o potássio vazar das células e esconde o que foi injetado. Tirar o oxigênio de um paciente grave não deixa marca própria. Não houve exumações.
O limite
O potássio do olho (humor vítreo) estima há quanto tempo a pessoa morreu, nunca por que morreu. E uma exumação hoje não acharia potássio para dosar.
A sentença
Pena final por quatro homicídios triplamente qualificados. O 1º júri deu 76 anos e o 2º, 69. Nas duas vezes, o TJRJ reduziu por crime continuado.
Foi o único processado: os colegas e os agentes funerários que ele apontou não responderam pelos crimes. O último registro na imprensa é de 2010, com ele preso em Bangu 8. Não há confirmação pública de soltura.
E se fosse hoje?
O cloreto de potássio concentrado hoje é de alta vigilância. Saber quem retirou a ampola, para qual paciente e a que horas ajudaria a ligar uma dose a uma pessoa.
Seringa, ampola e soro recolhidos logo após a morte, com cadeia de custódia. No laboratório, o excesso de potássio apareceria, porque ali não há autólise.
Monitores e ventiladores modernos guardam alarmes, desconexões e queda de oxigenação, com horário.
Continue investigando
Toda quarta, às 21h, eu abro um caso real ao vivo.
Perguntas frequentes
Quem foi o Enfermeiro da Morte?
Edson Izidoro Guimarães, auxiliar de enfermagem do Hospital Municipal Salgado Filho, no Rio. Preso em maio de 1999, confessou ter matado pacientes nos plantões.
Por que o cloreto de potássio é difícil de achar no corpo?
Depois da morte, o potássio de dentro das células vaza para o sangue e esconde o excesso injetado. E potássio e cloreto o corpo já tem.
Quantas pessoas ele matou?
Confessou cinco mortes e foi condenado por quatro. Chegou a ter 131 óbitos investigados, e 153 das 225 mortes da unidade foram nos plantões dele.
Qual foi a pena?
A pena final foi de 31 anos e 8 meses. Os dois júris deram 76 e 69 anos, e o TJRJ reduziu as duas por crime continuado.
Fontes
Materiais da aula (resumo do caso e técnica aplicada) e as matérias:
- Rio: funcionário de hospital é acusado de matar 153 pacientes · Diário do Grande ABC, 07/05/1999
- STJ mantém prisão do auxiliar Edson Isidoro Guimarães · Conjur, 28/09/1999
- Auxiliar de enfermagem Edson Izidoro tem registro cassado · Diário do Grande ABC, 22/12/1999
- RJ: Edson Izidoro é sentenciado a 76 anos de prisão · Conjur, 17/02/2000
- Auxiliar de enfermagem tem pena reduzida no Rio · Conjur, 13/03/2001
- Enfermeiro acusado de matar pacientes tem pena reduzida · Tribuna do Paraná, 14/08/2002
- Assassinatos em UTI no DF faz país relembrar o “Anjo da Morte” · Metrópoles, 22/01/2026
Texto educativo, feito a partir de decisões judiciais e de matérias públicas. Em respeito à memória das vítimas e às famílias, não usamos fotos das vítimas.