Caso real · Rio de Janeiro · 1999

Enfermeiro da Morte: quando o corpo não fala

Sem marca no corpo e sem exumação. A prova veio do registro.

153das 225 mortes
nos plantões dele
4mortes
julgadas
5peças que
sustentaram a prova
0exumações
Henrique Tabosa, perito criminal
Por Henrique Tabosa, perito criminal há 17 anos

O caso em 30 segundos

  • Em 1999, Edson Izidoro Guimarães era auxiliar de enfermagem nos plantões noturnos do Hospital Salgado Filho, no Méier, Rio de Janeiro.
  • Entre janeiro e maio, a unidade dele teve 225 mortes. 153 aconteceram nos plantões dele.
  • Ele confessou injeções de cloreto de potássio na veia e a retirada do oxigênio de pacientes graves.
  • Os dois métodos quase não deixam marca no corpo. A prova veio da testemunha, da escala de plantões e da confissão.
  • Condenado por quatro mortes, ficou com pena final de 31 anos e 8 meses.

Do padrão à pena final

68%
Das 225 mortes na unidade entre janeiro e maio de 1999, 153 foram nos plantões de Edson.
Jan – mai/1999

A unidade registra 225 mortes. A escala mostra 153 nos plantões dele.

07/05/1999

Três pacientes morrem de madrugada. Edson é preso de manhã e confessa no mesmo dia.

22/12/1999

O Coren-RJ cassa o registro profissional dele, por unanimidade.

17/02/2000

1º júri: condenado pelas quatro mortes a 76 anos.

13/03/2001

O TJRJ entende que é crime continuado e baixa a pena para 31 anos e 8 meses.

14/08/2002

Depois do 2º júri (69 anos), o TJRJ fixa de novo 31 anos e 8 meses.

Por que o potássio some

1
A célula fica sem oxigênio

Logo depois da morte começa a autólise. A célula para de produzir energia e fica ácida.

2
As bombas desligam

Em vida, quase todo o potássio fica dentro das células. Sem energia, as membranas se rompem.

3
O potássio vaza

Em poucas horas, o sangue de qualquer cadáver tem potássio alto. O excesso injetado se esconde no meio.

4
Não sobra nada estranho

O cloreto de potássio se separa em potássio e cloreto, que o corpo já tem. A toxicologia não tem o que procurar.

No dia da prisão, o secretário municipal de Saúde chamou isso de “morte branca”.

As 5 peças da prova

1

A escala × o livro de óbitos

De 4 de janeiro a 4 de maio de 1999, foram 225 mortes na unidade. 153, cerca de 68%, nos plantões de Edson.

O limite

A estatística mostra uma associação forte, mas não diz qual das 153 mortes foi provocada. Dos 131 óbitos investigados, só quatro chegaram a julgamento.

2

A funcionária da limpeza

Kátia, da limpeza, viu Edson aplicar uma injeção e o paciente morrer logo em seguida. Foi ela que levou a suspeita à direção do hospital.

O limite

Ela viu a aplicação, não o conteúdo. Não há registro público de que a seringa, a ampola ou o soro tenham sido recolhidos. Era ali que o excesso de potássio apareceria.

3

Os policiais à paisana

Agentes infiltrados entre os funcionários, sob o comando da delegada Marta Cavaliere. Em 1999, o STJ considerou válida essa vigilância e manteve a prisão.

O limite

A vigilância foi montada a partir da relação entre as mortes e os plantões dele. É prova de contexto: não há registro de exame do corpo que tenha mostrado a causa das mortes.

4

A confissão

Preso em 7 de maio de 1999, confessou no mesmo dia: ampolas de 10 ml de cloreto de potássio na veia ou retirada do oxigênio. Confessou cinco mortes.

O que a defesa disse

Que a confissão foi arrancada sob ameaça e agressão da polícia. Depois, que a imprensa pressionou os jurados. O pedido de anulação foi rejeitado.

5

O corpo que não falou

A autólise faz o potássio vazar das células e esconde o que foi injetado. Tirar o oxigênio de um paciente grave não deixa marca própria. Não houve exumações.

O limite

O potássio do olho (humor vítreo) estima há quanto tempo a pessoa morreu, nunca por que morreu. E uma exumação hoje não acharia potássio para dosar.

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A sentença

Edson Izidoro Guimarães · auxiliar de enfermagem31 anos e 8 meses

Pena final por quatro homicídios triplamente qualificados. O 1º júri deu 76 anos e o 2º, 69. Nas duas vezes, o TJRJ reduziu por crime continuado.

Foi o único processado: os colegas e os agentes funerários que ele apontou não responderam pelos crimes. O último registro na imprensa é de 2010, com ele preso em Bangu 8. Não há confirmação pública de soltura.

E se fosse hoje?

Controle do medicamento

O cloreto de potássio concentrado hoje é de alta vigilância. Saber quem retirou a ampola, para qual paciente e a que horas ajudaria a ligar uma dose a uma pessoa.

O material da hora

Seringa, ampola e soro recolhidos logo após a morte, com cadeia de custódia. No laboratório, o excesso de potássio apareceria, porque ali não há autólise.

Aparelhos que registram

Monitores e ventiladores modernos guardam alarmes, desconexões e queda de oxigenação, com horário.

Perguntas frequentes

Quem foi o Enfermeiro da Morte?

Edson Izidoro Guimarães, auxiliar de enfermagem do Hospital Municipal Salgado Filho, no Rio. Preso em maio de 1999, confessou ter matado pacientes nos plantões.

Por que o cloreto de potássio é difícil de achar no corpo?

Depois da morte, o potássio de dentro das células vaza para o sangue e esconde o excesso injetado. E potássio e cloreto o corpo já tem.

Quantas pessoas ele matou?

Confessou cinco mortes e foi condenado por quatro. Chegou a ter 131 óbitos investigados, e 153 das 225 mortes da unidade foram nos plantões dele.

Qual foi a pena?

A pena final foi de 31 anos e 8 meses. Os dois júris deram 76 e 69 anos, e o TJRJ reduziu as duas por crime continuado.

Fontes

Materiais da aula (resumo do caso e técnica aplicada) e as matérias:

Texto educativo, feito a partir de decisões judiciais e de matérias públicas. Em respeito à memória das vítimas e às famílias, não usamos fotos das vítimas.