Caso real · Distrito Federal · 1997

Caso Galdino Pataxó: o que a perícia mostrou

A autoria se resolveu em horas. A briga foi sobre a intenção.

2litros de álcool
comprados no posto
95%do corpo
queimado
5 a 2votos no júri
de 2001
14anos de pena
para quatro réus
Henrique Tabosa, perito criminal
Por Henrique Tabosa, perito criminal há 17 anos

O caso em 30 segundos

  • Galdino Jesus dos Santos, 44 anos, era uma liderança do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe, do sul da Bahia.
  • Em abril de 1997, estava em Brasília para o Dia do Índio e reuniões sobre a demarcação de terras.
  • Na madrugada de 20/04/1997, dormia num ponto de ônibus da W3 Sul quando cinco jovens jogaram álcool nele e atearam fogo.
  • Morreu no dia seguinte, com cerca de 95% do corpo queimado. Os cinco foram presos na mesma manhã.
  • Eles disseram que era só um susto. Em 2001, os quatro maiores de idade foram condenados por homicídio.

Do ponto de ônibus ao júri

≈ 7 anos
Foi o tempo de prisão até o livramento condicional, numa pena de 14 anos.
20/04/1997 · 5h

Os jovens compram dois litros de álcool num posto e voltam ao ponto de ônibus.

21/04/1997

Galdino morre no Hospital Regional da Asa Norte.

1997

A juíza desclassifica o crime para lesão corporal seguida de morte. O TJDFT mantém.

Fevereiro de 1999

O STJ, por 3 votos a 1, manda os quatro réus maiores a júri popular.

Novembro de 2001

O júri condena os quatro por homicídio qualificado, por 5 votos a 2: 14 anos.

A versão × os vestígios

O que os jovens disseramFoi só uma brincadeira, para dar um susto.
O que a investigação achouDois litros de álcool combustível comprados num posto minutos antes.
O que os jovens disseramO álcool era para limpar o carro.
O que a investigação achouSob o banco do abrigo, um frasco de 1 litro vazio, com a boca queimada.
O que os jovens disseramJogamos na perna do cobertor. Mas o fogo se espalhou rápido demais.
O que a investigação achouÁlcool combustível pega com qualquer chama. Quem joga o líquido e o fósforo não controla mais nada.

A perícia mostra o que foi feito e o risco que isso criava. A intenção, o dolo, é decidida pelo júri.

Os 5 vestígios que pesaram

1

Os dois litros do posto

Minutos antes, os jovens compraram dois litros de álcool combustível. Um foi derramado na grama perto do ponto, porque acharam que não precisariam dos dois. O outro foi usado em Galdino.

O que a defesa disse

Os réus disseram que queriam só assustar e que o fogo “pegou demais”. Pediam que o caso fosse julgado como lesão corporal seguida de morte, e não como homicídio.

2

O frasco debaixo do banco

O laudo de local descreve, sob o banco do abrigo, um frasco plástico verde de 1.000 ml, vazio, com a parte de cima queimada. Liga o fogo ao que foi comprado no posto.

O limite

Nenhum exame público liga o frasco ou os fósforos a uma pessoa. E o litro da grama só aparece nos depoimentos: álcool evapora rápido e não houve exame que confirmasse.

3

O pano e a roupa

Um réu contou que o fósforo foi jogado “na direção do pano” que cobria as pernas de Galdino. Pano e roupa eram o registro direto de onde o álcool caiu e onde a chama pegou.

O limite

Não há registro público de exame das vestes ou do pano. Galdino correu em chamas, e no hospital a roupa costuma ser tirada às pressas. Sem guardar as peças, o registro se perde.

4

O exame do corpo

Cerca de 85% do corpo com queimaduras de terceiro grau e 10% de segundo grau. Os médicos falaram em quadro “sem possibilidade de retorno”. Ele morreu no dia seguinte.

O limite

O laudo diz quanto e como o corpo foi atingido, não a intenção. E os curativos no hospital já alteram parte do desenho original das queimaduras.

5

A testemunha e o carro

Uma testemunha ajudou a apagar o fogo e anotou a placa do Monza preto. A placa levou a polícia ao dono do carro, e os cinco foram presos na mesma manhã.

O limite

As decisões citam o laudo de local e de veículo, mas não dizem o que foi achado no carro. E o local era uma avenida aberta, com gente circulando antes da perícia.

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A sentença

Os quatro maiores de idade · júri de 200114 anos

Homicídio qualificado, regime fechado. Não recorreram. Em 2002, saíram para estudar e trabalhar; em 2004, livramento condicional.

O adolescente de 16 anos · ECAMedida socioeducativa

Liberado em 12 de setembro de 1997, menos de cinco meses depois do crime.

Os condenados no júri foram Max Rogério Alves, Antônio Novély Cardoso de Vilanova, Tomás Oliveira de Almeida e Eron Chaves de Oliveira. Segundo a imprensa, os cinco seguiram a vida no serviço público.

E se fosse hoje?

Cadeia de custódia

A roupa e o pano tirados no hospital seriam lacrados como vestígio. Em recipiente hermético, guardariam resíduo de etanol para o laboratório.

Fotos antes dos curativos

Fotos com escala e um mapa das queimaduras na chegada ao hospital guardariam o desenho original para comparar com as vestes.

Câmeras e celulares

Câmeras do posto e da via, e dados de celular, ajudariam a confirmar horário, trajeto e quem comprou o álcool.

Perguntas frequentes

Quem foi Galdino Pataxó?

Galdino Jesus dos Santos, 44 anos, liderança do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe, do sul da Bahia. Estava em Brasília para cobrar a demarcação de terras.

Por que o crime chegou a ser tratado como lesão corporal?

Em 1997, a juíza aceitou a tese de que não havia intenção de matar. Em 1999, o STJ derrubou essa decisão e mandou o caso a júri.

Qual foi a pena dos acusados?

Os quatro maiores de idade pegaram 14 anos por homicídio qualificado e tiveram livramento condicional em 2004. O adolescente cumpriu medida socioeducativa.

O que a perícia achou no local?

Um frasco de 1 litro vazio, com a boca queimada, debaixo do banco do abrigo. Ele é compatível com o segundo litro de álcool comprado no posto.

Fontes

Material da aula e as matérias:

Texto educativo, feito a partir do material da aula e de matérias públicas. Em respeito à memória de Galdino, ao povo Pataxó Hã-Hã-Hãe e à família, não usamos fotos da vítima.