Caso real · São Paulo · 2008

Caso Isabella Nardoni: o que a perícia mostrou

Sem confissão e sem testemunha. A condenação veio dos vestígios.

6ºandar do
Edifício London
13minutos entre o carro
e a ligação
5vestígios que
decidiram o júri
0confissões
Henrique Tabosa, perito criminal
Por Henrique Tabosa, perito criminal há 17 anos

O caso em 30 segundos

  • Em 29/03/2008, Isabella, de 5 anos, foi encontrada no jardim do prédio depois de cair do 6º andar.
  • O pai e a madrasta disseram que um invasor jogou a menina pela janela.
  • Não havia arrombamento, nada foi levado e o tempo não fechava.
  • A perícia mostrou que ela foi agredida dentro do apartamento e jogada ainda viva.
  • Em 2010, o pai e a madrasta foram condenados pelo júri.

A noite em 13 minutos

13 min
Tudo teve de caber aqui: subir, a agressão, o corte da tela, a queda e a limpeza.
23h36

O rastreador registra o motor do carro desligado na garagem.

23h36 – 23h49

O casal sobe com as crianças. Isabella cai da janela do quarto dos irmãos.

23h49

Sai a primeira ligação para o socorro.

27/04/2008

Reconstituição no prédio, das 9h40 às 17h15, com boneca do mesmo peso e tamanho.

Março de 2010

Júri de 5 dias. Pai e madrasta condenados.

O caminho do sangue

QUARTO DE ISABELLA (tela intacta) QUARTO DOS IRMÃOS cama CORREDOR SALA JANELA PORTA

Esquema simplificado, fora de escala. Gotas reveladas com Bluestar, da porta até a tela da janela.

Os 5 vestígios que decidiram

1

O sangue que não se via

Com Bluestar (à base de luminol), a perita achou gotas da porta até a janela do quarto dos irmãos, com sinais de limpeza. Gotas redondas, de alguém ferido sendo carregado. O DNA confirmou: era de Isabella.

O que a defesa disse

A perita chegou 4 dias depois, e antes dela já tinham feito coletas. Para a defesa, as falhas na trilha podiam ser da própria perícia. E o reagente também reage com água sanitária e metais: só o DNA confirma. No carro, o DNA não foi conclusivo.

2

A tela cortada

A tela rompida era a do quarto dos irmãos, não a do quarto de Isabella. O corte foi feito por dentro. Na cozinha, uma tesoura tinha um pedaço da tela preso nela.

O limite

O corte mostra por onde ela saiu e que foi feito de dentro, mas não diz sozinho quem cortou.

3

A marca na camiseta

Na camiseta do pai apareceu o desenho da trama da rede de proteção. Segundo a perita, essa marca só se forma ao carregar cerca de 25 kg encostado na tela. Foi comparada quadrado por quadrado, pela foto com escala.

O limite

Marca de trama mostra contato com uma tela daquele padrão. Não diz quando foi nem com que intenção. Ganhou força somada ao resto.

4

Os 13 minutos do rastreador

Motor desligado às 23h36, socorro chamado às 23h49. Um horário que não depende da memória de ninguém. A reconstituição testou se a versão do casal cabia nesse tempo e nesse espaço.

O limite

O rastreador marca o carro, não as pessoas. E a reconstituição mostra o que é possível, não prova sozinha quem fez o quê.

5

O que o corpo mostrou

Esganadura: marcas de unha em meia-lua e de dedos no pescoço. Lesões na testa e no punho feitas com ela ainda viva, antes da queda.

O que a defesa disse

Um perito da defesa disse que parte das lesões podia ser da queda. Um laudo de 2013 disse que as marcas não seriam das mãos dos acusados. A Justiça rejeitou os dois.

Quer ver esse caso por dentro?Aula 03 gravada: slides, como se fotografa luminol, croqui do prédio e certificado de 4h.
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A sentença

Alexandre Nardoni · pai31 anos

Depois corrigida para 30 anos, 2 meses e 20 dias pelo homicídio. Regime aberto desde maio de 2024.

Anna Carolina Jatobá · madrasta26 anos e 8 meses

Regime aberto desde junho de 2023.

Os dois também foram condenados por fraude processual, que é alterar a cena, como limpar o sangue. Em setembro de 2026, o STJ negou um pedido para que voltassem ao regime fechado.

E se fosse hoje?

Cadeia de custódia

Registro de quem entrou na cena, quando e para quê. Responderia melhor à tese da trilha interrompida.

Escâner 3D

Guardaria todas as medidas da cena nas primeiras horas, inclusive para a defesa.

Tomografia

Ajudaria a separar o que veio da queda e o que veio antes, que foi a briga entre os laudos.

Perguntas frequentes

Como a perícia provou que ela foi agredida dentro do apartamento?

Pela trilha de sangue da porta até a janela, confirmada por DNA, e pelo laudo do corpo, que mostrou esganadura e lesões feitas antes da queda.

O que eram os 13 minutos?

O tempo entre o motor do carro desligado na garagem (23h36) e a primeira ligação para o socorro (23h49).

Qual foi a pena de cada um?

Alexandre: pouco mais de 31 anos, depois corrigida para 30 anos, 2 meses e 20 dias. Anna Carolina: 26 anos e 8 meses. Os dois também por fraude processual.

O que a defesa contestou?

Que parte das lesões viria da queda, que a perícia teria interrompido a trilha de sangue e que as marcas no pescoço não seriam das mãos dos acusados. A Justiça rejeitou essas teses.

Fontes

Autos do processo (pronúncia do TJSP, 2009, e sentença do júri, 2010) e as matérias:

Texto educativo, feito a partir dos autos e de matérias públicas. Em respeito à memória de Isabella e à família, não usamos fotos da vítima.