Caso Marielle Franco: o que a perícia mostrou
Um carro na rua, 13 impactos e 9 estojos. A física do vidro não tem lado.
no carro
na rua
UZZ-18
celular
O caso em 30 segundos
- Em 14/03/2018, a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes foram mortos a tiros no Estácio, no Rio.
- Um Cobalt prata emparelhou do lado direito do carro deles e de dentro saíram os disparos. A assessora Fernanda Chaves sobreviveu.
- Os estojos na rua apontaram uma submetralhadora HK MP5 e munição de um lote vendido à Polícia Federal.
- Câmeras e dados de 2.428 antenas de celular levaram aos executores, presos em março de 2019.
- Em 2024, o júri condenou os executores. Em 2026, o STF condenou os acusados de mandar e de acobertar o crime.
Do crime às condenações
Na Rua Joaquim Palhares, no Estácio, o Cobalt emparelha com o Agile e atira.
Reprodução simulada de mais de cinco horas, com tiros reais contra sacos de areia.
Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz são presos.
Presos os acusados de mandar o crime, apontados nas delações.
O júri condena Lessa e Élcio.
O STF condena, por unanimidade, os acusados de mandar e de acobertar o crime.
Como o vidro conta o tiro
O temperado se desfaz inteiro e leva a informação junto. Foi o que aconteceu no vidro traseiro direito do Agile.
O furo abre em cone no sentido do tiro. Cratera na face de dentro: o tiro veio de fora.
Uma fratura nova para ao encontrar outra. Assim se monta a ordem dos tiros, mas só quando as fraturas se tocam.
Liga dois furos da mesma trajetória. No Agile: de trás para frente, da direita para a esquerda.
O projétil desvia ao atravessar. Cacos na pele imitam pólvora, e um tiro de perto pode parecer de longe.
Os laudos com a leitura de cada perfuração não são públicos.
Os 5 vestígios que decidiram
Os 9 estojos na rua
Marcam a posição aproximada do atirador. Oito eram do lote UZZ-18, vendido à Polícia Federal em 2006. O mesmo lote apareceu em outros 17 crimes no Rio.
O limite
O lote diz para quem a munição foi vendida, não quem a desviou nem quem atirou. E nove estojos são o número mínimo de disparos, por isso não batem com os 13 impactos.
A arma pelas marcas
No início, a suspeita era de uma pistola 9 mm. As marcas nos estojos mostraram uma submetralhadora HK MP5, calibre 9 mm, de uso restrito.
O limite
Sem a arma, o confronto fica entre estojos: liga cenas, mas não fecha num exemplar apreendido. Segundo o noticiado em 2023, a Polícia Federal não achou rastro da arma.
Os vidros do Agile
13 impactos: 9 na lataria e 4 nos vidros, concentrados no lado direito e na traseira. Bate com o Cobalt emparelhando pela direita.
O limite
O vidro traseiro direito se desfez por inteiro, como temperado. Ali o cone e a ordem dos tiros se perderam. Não há registro público de leitura da sequência pelas fraturas.
As varetas e a reprodução
Varetas no lado direito mostraram tiros de trás para frente e da direita para a esquerda, quase paralelos ao chão. A reprodução simulada buscou a distância, o ângulo e o som dos disparos.
O limite
Com os dois carros andando, a trajetória é relativa ao carro atingido, não um ponto fixo na rua. E a vareta não corrige o desvio que o projétil sofre no vidro.
A necropsia e os fragmentos
Marielle foi atingida por quatro tiros na cabeça, do lado direito, e Anderson por três nas costas. Fragmentos de projétil foram guardados para comparar com o material do carro.
O limite
Segundo a BandNews, os projéteis não foram retirados do corpo de Anderson porque o IML não tinha raio-X disponível no dia. Projétil que fica no corpo não entra no confronto balístico.
As condenações
O júri de 31/10/2024 deu 78 anos e 9 meses. Em agosto de 2026, o TJRJ aumentou a pena.
O mesmo júri deu 59 anos e 8 meses. Aumentada em agosto de 2026. Os dois fizeram delação premiada.
Cada um, pelo STF, em 25/02/2026. Não cabe mais recurso desde julho de 2026.
O STF também condenou Ronald Paulo Alves Pereira (56 anos), Rivaldo Barbosa (18 anos, por obstrução de justiça e corrupção passiva) e Robson Calixto Fonseca (9 anos). Em setembro de 2026, autorizou a cobrança de R$ 7 milhões de indenização às famílias e a Fernanda Chaves.
E se fosse hoje?
Guardaria em escala as perfurações e as varetas. Daria para refazer trajetórias sem depender do veículo, que se deteriora.
A cadeia de custódia de 2019 exige coleta e embalagem em separado. Isso preservaria digitais e DNA de toque nos estojos.
Tomografia ou raio-X de rotina ajudaria a localizar e retirar todos os projéteis e fragmentos para o confronto.
Continue investigando
Toda quarta, às 21h, eu abro um caso real ao vivo.
Perguntas frequentes
Quantos tiros atingiram o carro de Marielle?
O carro recebeu 13 impactos, 9 na lataria e 4 nos vidros. Na rua foram recolhidos 9 estojos, que são o número mínimo de disparos.
Qual arma foi usada no caso Marielle?
Uma submetralhadora HK MP5, calibre 9 mm, de uso restrito, identificada pelas marcas nos estojos. Segundo o noticiado em 2023, a Polícia Federal não achou rastro dela.
O que é o lote UZZ-18?
É o lote de 8 dos 9 estojos da cena, vendido à Polícia Federal em 2006. Munição do mesmo lote apareceu em outros 17 crimes no Rio.
Quem foi condenado pela morte de Marielle e Anderson?
Os executores Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, pelo júri, em 2024. Em 2026, o STF condenou Domingos e Chiquinho Brazão como mandantes e mais três réus.
Fontes
Materiais da aula (resumo do caso e técnica aplicada) e as matérias:
- Quem era Marielle Franco, vereadora assassinada a tiros no Rio de Janeiro? · Correio Braziliense, 15/03/2018
- Marielle: laudo aponta que vereadora levou quatro tiros na cabeça · Metrópoles, 25/04/2018
- Caso Marielle é exemplo de como tecnologia pode ajudar a solucionar crimes · Folha de Pernambuco, 15/03/2019
- Munição encontrada no caso Marielle aparece em outros 17 crimes cometidos no Rio · CNN Brasil, 24/07/2020
- Lessa disse que testou metralhadora antes de matar Marielle e que projéteis seriam de "fácil resgate" · CNN Brasil, 07/06/2024
- Ronnie e Élcio são condenados por assassinar Marielle e Anderson · Agência Brasil, 31/10/2024
- Supremo condena irmãos Brazão como mandantes do assassinato de Marielle Franco · Conjur, 25/02/2026
- Caso Marielle: Justiça amplia penas de Ronnie Lessa e Élcio Queiroz · Agência Brasil, 06/08/2026
Texto educativo e técnico, feito a partir de decisões judiciais e de matérias públicas, sem opinião política. Em respeito à memória de Marielle e de Anderson e às famílias, não usamos fotos das vítimas.