Caso real · Rio de Janeiro · 2018

Caso Marielle Franco: o que a perícia mostrou

Um carro na rua, 13 impactos e 9 estojos. A física do vidro não tem lado.

13impactos
no carro
9estojos
na rua
8do lote
UZZ-18
2.428antenas de
celular
Henrique Tabosa, perito criminal
Por Henrique Tabosa, perito criminal há 17 anos

O caso em 30 segundos

  • Em 14/03/2018, a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes foram mortos a tiros no Estácio, no Rio.
  • Um Cobalt prata emparelhou do lado direito do carro deles e de dentro saíram os disparos. A assessora Fernanda Chaves sobreviveu.
  • Os estojos na rua apontaram uma submetralhadora HK MP5 e munição de um lote vendido à Polícia Federal.
  • Câmeras e dados de 2.428 antenas de celular levaram aos executores, presos em março de 2019.
  • Em 2024, o júri condenou os executores. Em 2026, o STF condenou os acusados de mandar e de acobertar o crime.

Do crime às condenações

14/03/2018 · 21h30

Na Rua Joaquim Palhares, no Estácio, o Cobalt emparelha com o Agile e atira.

10 e 11/05/2018

Reprodução simulada de mais de cinco horas, com tiros reais contra sacos de areia.

12/03/2019

Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz são presos.

24/03/2024

Presos os acusados de mandar o crime, apontados nas delações.

31/10/2024

O júri condena Lessa e Élcio.

25/02/2026

O STF condena, por unanimidade, os acusados de mandar e de acobertar o crime.

Como o vidro conta o tiro

1
Conhecer o vidro

O temperado se desfaz inteiro e leva a informação junto. Foi o que aconteceu no vidro traseiro direito do Agile.

2
Menor na entrada, maior na saída

O furo abre em cone no sentido do tiro. Cratera na face de dentro: o tiro veio de fora.

3
Quem interrompe chegou depois

Uma fratura nova para ao encontrar outra. Assim se monta a ordem dos tiros, mas só quando as fraturas se tocam.

4
A vareta mostra o caminho

Liga dois furos da mesma trajetória. No Agile: de trás para frente, da direita para a esquerda.

5
O vidro muda o tiro

O projétil desvia ao atravessar. Cacos na pele imitam pólvora, e um tiro de perto pode parecer de longe.

Os laudos com a leitura de cada perfuração não são públicos.

Os 5 vestígios que decidiram

1

Os 9 estojos na rua

Marcam a posição aproximada do atirador. Oito eram do lote UZZ-18, vendido à Polícia Federal em 2006. O mesmo lote apareceu em outros 17 crimes no Rio.

O limite

O lote diz para quem a munição foi vendida, não quem a desviou nem quem atirou. E nove estojos são o número mínimo de disparos, por isso não batem com os 13 impactos.

2

A arma pelas marcas

No início, a suspeita era de uma pistola 9 mm. As marcas nos estojos mostraram uma submetralhadora HK MP5, calibre 9 mm, de uso restrito.

O limite

Sem a arma, o confronto fica entre estojos: liga cenas, mas não fecha num exemplar apreendido. Segundo o noticiado em 2023, a Polícia Federal não achou rastro da arma.

3

Os vidros do Agile

13 impactos: 9 na lataria e 4 nos vidros, concentrados no lado direito e na traseira. Bate com o Cobalt emparelhando pela direita.

O limite

O vidro traseiro direito se desfez por inteiro, como temperado. Ali o cone e a ordem dos tiros se perderam. Não há registro público de leitura da sequência pelas fraturas.

4

As varetas e a reprodução

Varetas no lado direito mostraram tiros de trás para frente e da direita para a esquerda, quase paralelos ao chão. A reprodução simulada buscou a distância, o ângulo e o som dos disparos.

O limite

Com os dois carros andando, a trajetória é relativa ao carro atingido, não um ponto fixo na rua. E a vareta não corrige o desvio que o projétil sofre no vidro.

5

A necropsia e os fragmentos

Marielle foi atingida por quatro tiros na cabeça, do lado direito, e Anderson por três nas costas. Fragmentos de projétil foram guardados para comparar com o material do carro.

O limite

Segundo a BandNews, os projéteis não foram retirados do corpo de Anderson porque o IML não tinha raio-X disponível no dia. Projétil que fica no corpo não entra no confronto balístico.

Quer ver esse caso por dentro?Aula 10 gravada: slides, como ler avarias de tiro em vidros (direção, ordem e trajetória) e certificado de 4h.
Assistir por R$ 29,90

As condenações

Ronnie Lessa · autor dos disparos81 anos e 10 meses

O júri de 31/10/2024 deu 78 anos e 9 meses. Em agosto de 2026, o TJRJ aumentou a pena.

Élcio de Queiroz · motorista do Cobalt76 anos e 6 meses

O mesmo júri deu 59 anos e 8 meses. Aumentada em agosto de 2026. Os dois fizeram delação premiada.

Domingos e Chiquinho Brazão · mandantes76 anos e 3 meses

Cada um, pelo STF, em 25/02/2026. Não cabe mais recurso desde julho de 2026.

O STF também condenou Ronald Paulo Alves Pereira (56 anos), Rivaldo Barbosa (18 anos, por obstrução de justiça e corrupção passiva) e Robson Calixto Fonseca (9 anos). Em setembro de 2026, autorizou a cobrança de R$ 7 milhões de indenização às famílias e a Fernanda Chaves.

E se fosse hoje?

Escâner 3D do carro

Guardaria em escala as perfurações e as varetas. Daria para refazer trajetórias sem depender do veículo, que se deteriora.

Um estojo, um envelope

A cadeia de custódia de 2019 exige coleta e embalagem em separado. Isso preservaria digitais e DNA de toque nos estojos.

Raio-X na necropsia

Tomografia ou raio-X de rotina ajudaria a localizar e retirar todos os projéteis e fragmentos para o confronto.

Perguntas frequentes

Quantos tiros atingiram o carro de Marielle?

O carro recebeu 13 impactos, 9 na lataria e 4 nos vidros. Na rua foram recolhidos 9 estojos, que são o número mínimo de disparos.

Qual arma foi usada no caso Marielle?

Uma submetralhadora HK MP5, calibre 9 mm, de uso restrito, identificada pelas marcas nos estojos. Segundo o noticiado em 2023, a Polícia Federal não achou rastro dela.

O que é o lote UZZ-18?

É o lote de 8 dos 9 estojos da cena, vendido à Polícia Federal em 2006. Munição do mesmo lote apareceu em outros 17 crimes no Rio.

Quem foi condenado pela morte de Marielle e Anderson?

Os executores Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, pelo júri, em 2024. Em 2026, o STF condenou Domingos e Chiquinho Brazão como mandantes e mais três réus.

Fontes

Materiais da aula (resumo do caso e técnica aplicada) e as matérias:

Texto educativo e técnico, feito a partir de decisões judiciais e de matérias públicas, sem opinião política. Em respeito à memória de Marielle e de Anderson e às famílias, não usamos fotos das vítimas.